Não é coincidência que a grade do TCM para junho abra na segunda-feira, dia 1º, com a estreia da série Cris Miró (Ela) — e que faça isso despejando os oito episódios completos da primeira temporada num único bloco de primetime, das 22h à madrugada. Junho é o Mês do Orgulho LGBTQIA+, e o canal optou por iniciar o mês com uma das histórias mais impactantes e menos conhecidas fora da Argentina: a vida da primeira mulher trans a se tornar vedete num dos palcos mais tradicionais de Buenos Aires.
A escolha editorial é das mais acertadas da série de análises que o Além da Tela tem feito das grades do grupo Warner Bros. Discovery no Brasil nos últimos meses.
Cris Miró (Ela): oito episódios de uma vez, logo no dia 1º
Baseada no romance Hembra, de Carlos Sanzol, Cris Miró (Ela) (2024, Argentina) reconstrói a trajetória de Cris Miró, que desafiou os estereótipos da cena do entretenimento portenho para se tornar vedete no Teatro Maipo — símbolo máximo do teatro de revista argentino. A série percorre desde suas origens no mundo do espetáculo até um desfecho trágico, com Katja Aleman no papel principal ao lado de César Bordón e Manu Fanego.
O canal exibe os oito episódios de forma consecutiva, das 22h à madrugada de dia 1º, no formato de maratona de estreia. É uma aposta de impacto: quem ligar o TCM no começo do mês vai encontrar a série inteira disponível numa única noite — um formato que funciona tanto para o espectador casual quanto para o fã que quer absorver tudo de uma vez.
O bloco de séries argentinas: três títulos em rotação semanal
Com Cris Miró estreando em junho, o TCM consolida o modelo de séries argentinas no primetime que vinha testando desde maio. Três séries dividem as noites da semana em sistema de revezamento fixo:
Maricón Perdido (2021, Espanha) — às quartas-feiras, episódios 1 a 6 ao longo do mês, sempre em dupla após as 23h42. A série acompanha Roberto, um homem que é questionado pela melhor amiga sobre sua orientação sexual — e que, dez anos depois, no bairro Chueca em Madri, tenta responder a essa pergunta através da escrita. É uma comédia dramática de identidade com forte veia autobiográfica.
Un Gallo para Esculapio (2017–2018, dir. Bruno Stagnaro) — às sextas-feiras, dois episódios por noite, avançando da 1ª para a 2ª temporada. A série sobre o universo dos rinhas de galo na Argentina — com toda a tensão moral, lealdades e violência que esse mundo carrega — vai do episódio 3 ao início da segunda temporada ao longo de junho.
El Maestro (2017, Argentina) — estreia no bloco de séries na quarta, dia 24, com os dois primeiros episódios. O drama sobre um professor de balé fecha o mês adicionando um quarto título ao repertório de ficção latina do canal.
A novidade inesperada: Falling Skies na madrugada
Entre todas as escolhas da grade de junho, a mais surpreendente é a presença de Falling Skies — série norte-americana de ficção científica sobre a invasão alienígena da Terra, produzida por Steven Spielberg e exibida pelo TNT entre 2011 e 2015 — no slot da madrugada (4h–5h), de segunda a quinta.
A 4ª e 5ª temporadas da série estão sendo exibidas episódio a episódio ao longo de junho, o que representa uma quebra total do padrão do canal. Falling Skies não é clássico de Hollywood, não é produção latina, não tem relação óbvia com o restante da curadoria do TCM. É, provavelmente, o resultado de um pacote de licenciamento mais amplo do grupo — e a madrugada foi o horário encontrado para acomodá-la sem comprometer a identidade da grade principal.
Hollywood One on One: o bloco matinal de entrevistas
Novidade estrutural em junho, o slot Hollywood One on One passa a ocupar as manhãs do canal — 60 exibições ao longo do mês, sempre a partir das 6h. O formato, tradicional no TCM internacional, apresenta entrevistas com diretores, roteiristas e atores clássicos de Hollywood, funcionando como complemento cultural ao catálogo de filmes da grade. É um acréscimo que reforça a proposta cinéfila do canal e diferencia suas manhãs das demais emissoras do grupo.
Conteúdo brasileiro: sete filmes no slot da tarde
O bloco TCM BRZ Afternoon mantém a regularidade de maio, com sete produções nacionais exibidas nas segundas e quartas às 20h — sempre antes do primetime das 22h:
- Rodeio Rock (2023, Marcelo Antunez) — dia 1º
- Procura-se (2022, Marcelo Antunez) — dia 3
- O Amor Dá Voltas (2022, Marcos Bernstein) — dia 8
- Saideira (2024, Pedro Arantes e Júlio Taubkin) — dia 10
- Saudosa Maloca (2023, Pedro Soffer Serrano) — dia 17
- O Faixa Preta (2022, Caco Souza) — dia 22
- Me Tira da Mira (2022, Hsu Chien Hsin) — dia 29
O TCM batizou o slot com nome próprio — TCM BRZ Afternoon —, o que representa um passo além do simples cumprimento da Lei nº 14.815/2024: o canal cria uma identidade para o bloco, transformando a obrigação regulatória num produto editorial reconhecível. É a abordagem mais sofisticada de posicionamento de cota nacional entre todos os canais desta série.
Os clássicos que não abrem mão do primetime
Com 44 dos 128 filmes únicos lançados nas décadas de 1940 e 1950, o TCM de junho mantém sua espinha dorsal intacta. Quatro títulos absolutamente canônicos aparecem diretamente no slot das 22h:
- Citizen Kane (Orson Welles, 1941) — terça, dia 16
- Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952, Stanley Donen e Gene Kelly) — segunda, dia 22
- Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, 1951, Elia Kazan) — domingo, dia 28
- Júlio César (Julius Caesar, 1953, Joseph Mankiewicz) — segunda, dia 29
É um quarteto que resume décadas inteiras de cinema norte-americano — Welles, o musical clássico, Williams e Shakespeare em Hollywood. O fato de que todos os quatro estão no slot mais nobre da grade, e não apenas distribuídos por horários diurnos, diz muito sobre como o TCM ainda trata seu catálogo fundador.
Outros destaques do mês no cinema latino incluem Como Água para Chocolate (Como Agua para Chocolate, México, 1992, Alfonso Arau) no domingo dia 14, O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre, 2016) — Prêmio Goya e vencedor em San Sebastián com Oscar Martínez — na quarta dia 17, e Rojo (2018, dir. Benjamín Naishtat) no domingo dia 21, thriller de ditadura argentina com Darío Grandinetti.
O que a grade revela sobre o TCM em junho
Comparado a maio, junho é um salto de maturidade editorial. A estreia de Cris Miró no Mês do Orgulho revela um canal que já pensa seus movimentos com intencionalidade cultural — e não apenas como repositório de clássicos. O slot TCM BRZ Afternoon com nome próprio, a expansão para quatro séries argentinas e a inclusão de Hollywood One on One nas manhãs sinalizam um canal em processo ativo de reinvenção da sua identidade, sem abandonar o acervo que o define.
A pergunta que permanece é quanto dessa renovação reflete uma estratégia deliberada do grupo — e quanto é simplesmente o resultado de pacotes de licenciamento que chegam e precisam de encaixe na grade.
E você, vai maratonar Cris Miró (Ela) na abertura de junho ou prefere o TCM pelo acervo de Orson Welles e Elia Kazan?
