CBS News Radio encerra 99 anos de história no rádio americano

Última rede de rádio original dos Estados Unidos transmitiu seu noticiário final na noite de 22 de maio, encerrando um legado que começou com Edward R. Murrow.

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Às 23h31 da noite de sexta-feira (22), o âncora Christopher Cruise leu as últimas palavras de um noticiário da CBS News Radio. Ao final, a emissora reproduziu a despedida icônica de Edward R. Murrow — “Good night, and good luck” — encerrando quase um século ininterrupto de jornalismo radiofônico. Foi o último suspiro da última grande rede de rádio original dos Estados Unidos.

A CBS News Radio operava desde setembro de 1927 e distribuía conteúdo para cerca de 700 emissoras afiliadas pelo país. Era também a casa do World News Roundup, o noticiário mais longevo em atividade nos Estados Unidos — um programa nascido em 1938, quando a Europa caminhava para a guerra, e que sobreviveu a tudo: guerras mundiais, assassinatos de presidentes, a chegada do homem à Lua, o 11 de Setembro e a era digital. Sobreviveu a tudo, menos à planilha de custos de 2026.

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De Murrow ao silêncio

A primeira transmissão que definiu o DNA da CBS no rádio aconteceu em 13 de março de 1938, quando a rede improvisou uma cobertura ao vivo com correspondentes em cinco cidades europeias durante a anexação da Áustria pela Alemanha nazista. Robert Trout ancorou de Nova York, e um jovem chamado Edward R. Murrow fez seu primeiro relato jornalístico, direto de Viena. Nascia ali o formato que se tornaria padrão no jornalismo eletrônico mundial: correspondentes de campo conectados a um âncora central.

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O World News Roundup virou instituição. Na manhã de sexta, Steve Kathan, âncora do programa há anos, conduziu a edição final matutina com a mesma sobriedade de sempre — as manchetes incluíam a morte do piloto da NASCAR Kyle Busch e previsões para o feriado do Memorial Day. Aos seis minutos, pausou para reconhecer que aquele era o fim. Depois, fez o que um jornalista da CBS faria: colocou no ar a voz de Murrow.

A conta que não fechou

O encerramento foi anunciado pela direção da CBS News em março de 2026. O presidente Tom Cibrowski e a editora-chefe Bari Weiss atribuíram a decisão a mudanças na programação das afiliadas e a “realidades econômicas desafiadoras“. Nos bastidores, o processo começou em agosto de 2025, quando a família Ellison, da Skydance Media, concluiu a aquisição da Paramount Global e iniciou cortes que atingiram a divisão de rádio já em outubro.

A CBS News Radio foi a última das três redes de rádio originais dos EUA a sair do ar — a NBC Radio Network e a Mutual Broadcasting System haviam encerrado suas operações em 1999. Com seu fim, desaparece o último fio contínuo que ligava o jornalismo americano contemporâneo à era de ouro do rádio.

O eco que fica

Ao longo de suas quase dez décadas, a CBS News Radio cobriu ao vivo o ataque a Pearl Harbor, a invasão da Normandia, a coroação da Rainha Elizabeth II, a crise dos mísseis de Cuba, o apagão de Nova York de 1977, a Guerra do Golfo, os ataques de 11 de setembro e o desastre do ônibus espacial Columbia. Não era apenas um serviço de notícias — era a trilha sonora informativa de um país inteiro.

Na última transmissão, Cruise disse que pensaria nos predecessores: nomes como Murrow, Charles Collingwood, Robert Trout, Dan Rather, e nos milhares de profissionais que construíram a rede ao longo das décadas. A despedida foi sóbria, sem pirotecnia — exatamente como a CBS sempre fez.

Para quem cresceu ouvindo o rádio como fonte primária de informação, o silêncio da CBS News Radio é mais do que o fechamento de uma operação comercial. É o encerramento de um modelo de jornalismo que acreditava que palavras bem escolhidas, ditas com clareza, bastavam para informar uma nação. Num mundo de feeds infinitos e notificações por segundo, essa aposta parece quase ingênua. Mas funcionou por 99 anos.

O rádio informativo ainda tem lugar na era dos algoritmos, ou a CBS foi apenas a última a reconhecer o óbvio?

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