Quem liga para o TCM esperando Humphrey Bogart às 22h vai tomar um susto. A grade de maio de 2026 do canal revela uma curadoria cada vez mais híbrida: de um lado, um acervo de clássicos hollywoodianos das décadas de 1940 e 1950 que ainda domina a programação diurna. Do outro, um primetime que funciona quase como um canal de conteúdo latino-americano contemporâneo — com séries argentinas no horário nobre e, nos fins de semana, uma maratona da franquia Saw que ninguém esperaria encontrar por aqui.
Séries argentinas dominam as 22h
O bloco das 22h, horário de maior audiência do canal a cabo, foi praticamente entregue a três séries argentinas em sistema de rodízio durante todo o mês:
- Tu Parte del Trato (2019, dir. Jorge Nisco) — drama com Nicolas Cabré e Eleonora Wexler, exibido às segundas e sextas, do episódio 1 ao 8 ao longo do mês
- La Mente del Poder (2024, dir. Mariano Hueter) — suspense político, reservado para as quartas-feiras e com episódios dobrados na mesma noite (ep. 1 ao 8)
- El Tigre Verón (2019, dir. Daniel Barone) — drama esportivo sobre o universo do futebol argentino, exibido às terças e quintas
A estratégia é clara: o TCM usa o peso do cinema clássico como âncora diurna e investe no drama argentino contemporâneo para segurar o espectador à noite. É um modelo que canais como o Space já testaram — com resultados mistos.
Ao final do mês, uma quarta série entra no radar: Un Gallo para Esculapio (2017, dir. Bruno Stagnaro), nas noites dos dias 29 e 30, reforçando ainda mais a aposta no conteúdo portenho.
A surpresa: maratona Saw na madrugada
Entre os dias 3 e 6 de maio, o canal exibe a franquia Saw em sequência — do original de 2004 até o Saw VI — em sessões que começam às 23h33 e se estendem madrugada adentro. É um movimento incomum para um canal historicamente associado ao cinema de prestígio, mas que sinaliza uma abertura para um público mais jovem e fãs de terror. O primeiro Saw, de James Wan, ainda aparece também no primetime das 22h no dia 4, indicando que o canal acredita no título como locomotiva de audiência.
Produções brasileiras: escolha editorial ou obrigação legal?
Oito produções com participação brasileira aparecem na grade, todas concentradas no pré-primetime das 20h. À primeira vista, parece uma curadoria afetiva pelo cinema nacional. Na prática, há um componente regulatório que não pode ser ignorado.
A Lei nº 14.815/2024 garante a exibição de produções nacionais na TV paga até 2038, com a Ancine fiscalizando o cumprimento de um mínimo de 3 horas e 30 minutos de produções brasileiras em horário nobre por semana. Ou seja: canais estrangeiros operando no Brasil — e o TCM é controlado pela Warner Bros. Discovery — não têm escolha.
Reprises de obras brasileiras não contam para a cota de conteúdo nacional EBC, o que obriga os canais a recorrerem a títulos inéditos ou diferentes a cada ciclo.
Os filmes brasileiros escalados para maio são:
- Júpiter (2020, Marco Abujamra) — dia 4
- Me Tira da Mira (2022, Hsu Chien Hsin) — dias 6 e 20
- Saideira (2024, Pedro Arantes e Júlio Taubkin) — dia 11
- Deserto Particular (2021, Aly Muritiba) — dia 13
- #PartiuFama: Cancelado no Amor (2022, Miguel Rodrigues) — dia 18
- O Faixa Preta (2022, Caco Souza) — dia 25
- Rodeio Rock (2023, Marcelo Antunez) — dia 27
O título de maior peso crítico é Deserto Particular, de Aly Muritiba, que circulou por festivais internacionais e trouxe visibilidade ao cinema LGBT brasileiro. No geral, porém, a seleção é heterogênea e pouco coesa — o que sugere que o critério principal foi o cumprimento da cota, não uma curadoria temática.
Os clássicos não desapareceram
Na programação diurna, o DNA original do canal segue intacto. Maio tem pelo menos 50 títulos do período 1940-1960, com destaques que merecem atenção:
- Citizen Kane (Orson Welles, 1941) — madrugada do dia 10, às 3h19
- North by Northwest (Hitchcock, 1959) — tarde do dia 7
- Singin’ in the Rain (1952) — tarde do dia 24
- Ben-Hur (William Wyler, 1959) — tarde do dia 14
- East of Eden (Elia Kazan, 1955) — tarde do dia 26
- Suspicion (Hitchcock, 1941) — abre o mês no primetime do dia 1º
A abertura de maio com Suspicion — Hitchcock, Cary Grant, noite de 1º de maio às 22h — parece um recado: “ainda somos TCM”. O que vem depois, nem tanto.
O que a grade revela sobre a estratégia do canal
Com 156 exibições de filmes norte-americanos contra 56 argentinas — e uma participação crescente de produções sul-coreanas e de Hong Kong no horário diurno — o TCM está claramente redesenhando seu posicionamento. O canal de clássicos de Hollywood está se tornando, na prática, uma plataforma de cinema latino-americano à noite e um arquivo de Hollywood durante o dia.
Se essa fórmula vai funcionar com o assinante brasileiro, que espera Bogart mas recebe Nicolas Cabré, ainda é uma incógnita. O que a grade de maio confirma é que a mudança não é acidental — é editorial.
E você, prefere o TCM dos clássicos intocados ou acha que a abertura para séries argentinas e produções brasileiras faz sentido para o canal?
