A curiosa história da mulher que gravou 35 anos da história da TV

Munida de múltiplos gravadores de VHS, ex-bibliotecária registrou mais de 840 mil horas de conteúdo para provar que os jornais mudavam as notícias ao longo do dia

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Nas plataformas de streaming atuais, clicar em um botão para rever um telejornal de anos atrás é algo comum. Mas em 1977, a televisão era um meio efêmero: se você não estivesse na frente da tela no momento exato da transmissão, aquela imagem se perdia para sempre. Para a maioria das pessoas, isso era o normal; para Marion Stokes, era uma ameaça à verdade histórica. Durante 35 anos, essa mulher transformou sua vida e suas propriedades em uma gigantesca máquina de captura de tempo, registrando tudo o que passava na TV em fitas VHS, de forma ininterrupta, até o dia de sua morte, em 2012.

O projeto, que começou como um comportamento excêntrico e quase paranoico, gerou um legado inestimável detalhado em uma análise do canal Answers with Joe (em inglês). Marion Stokes acumulou mais de 40 mil fitas de vídeo, o equivalente a 840 mil horas de programação que incluem desde grandes coberturas internacionais até os comerciais locais da época.

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Da crise de reféns à paranoia com o mundo digital

Recorder: The Marion Stokes Project :: Zeitgeist Films

A virada de chave para a obsessão de Marion ocorreu em 1979, durante a crise dos reféns no Irã. Fascinada e desconfiada da cobertura jornalística, ela percebeu que os fatos relatados nas primeiras edições da manhã eram sutilmente alterados ou omitidos nos telejornais do final da noite. Para ter provas concretas de que a narrativa da mídia estava mudando, ela ligou o primeiro gravador de vídeo (VCR). E nunca mais desligou.

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A rotina de Marion passou a ser ditada pelo tempo de duração das fitas. Ela espalhou múltiplas televisões por todos os cômodos de suas casas, sintonizadas em canais diferentes. Durante a noite, utilizava fitas de seis horas para conseguir dormir um pouco e, pela manhã, a primeira tarefa era fazer o rodízio dos cartuchos.

“Ela chegava a encerrar jantares em restaurantes mais cedo para correr para casa e trocar as fitas antes que a gravação parasse”, revelou seu filho, Michael Metelits, em entrevistas posteriores.

Quando ficou idosa demais para dar conta do ritmo, Marion contratou um assistente para manter as máquinas alimentadas.

O mais curioso dessa engenharia doméstica é que ela recusava terminantemente qualquer tecnologia digital. Por ter sido uma ativista dos direitos civis muito ativa nos anos 1960, organizando ônibus para a marcha de Martin Luther King e cofundando divisões da National Organization for Women, Marion tinha certeza de que era vigiada pelo FBI. Para ela, o meio digital era facilmente rastreável e manipulável, enquanto as fitas VHS eram físicas, seguras e analógicas.

O resgate bilionário do Internet Archive

O verdadeiro valor da montanha de fitas só foi compreendido depois da morte de Marion, aos 83 anos. Historicamente, as grandes redes de televisão americanas tinham o péssimo hábito de reutilizar fitas antigas, gravando por cima de materiais jornalísticos históricos para economizar dinheiro. Praticamente ninguém mantinha um registro fiel dos blocos comerciais ou das transmissões locais de plantões de emergência. Marion guardou tudo.

Ela registrou em tempo real eventos como o atentado de 11 de setembro (revelando que a CNN foi a primeira a cortar a programação, e a Fox a última), a Guerra do Golfo, o impeachment de Bill Clinton e até o momento exato em que a cantora Sinead O’Connor rasgou a foto do Papa no programa Saturday Night Live.

Todo esse acervo foi doado ao Internet Archive, uma organização sem fins lucrativos focada em preservar a memória da rede. A transferência de toda a coleção das casas e depósitos de Marion na Filadélfia para o centro de digitalização na Califórnia custou cerca de 12 mil dólares apenas em frete.

O desafio tecnológico da digitalização em tempo real

Se coletar o material foi um trabalho hercúleo, preservá-lo digitalmente é um desafio que perdura. Ao contrário de arquivos de texto ou fotos, as fitas VHS não podem ser aceleradas durante o processo de captura: cada fita precisa ser rodada em tempo real (1x) dentro das máquinas de digitalização. Com mais de 840 mil horas de áudio e vídeo acumuladas, o projeto de conversão deve levar décadas para ser concluído.

O paradoxo final da vida de Marion Stokes é marcante. A mulher que sacrificou o espaço de suas nove casas, seus relacionamentos familiares e sua própria rotina para esconder um tesouro analógico contra o monitoramento do governo, agora tem o trabalho de sua vida exposto justamente na internet, a maior rede pública do planeta.

No fim das contas, a paranoia de Marion deu ao mundo a única máquina do tempo capaz de auditar o passado e entender como a mídia moldou a sociedade polarizada em que vivemos hoje.

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