A Sky, controlada pela Comcast, formalizou nesta segunda-feira a compra da divisão de mídia e entretenimento da ITV, os canais lineares e o serviço de streaming ITVX, por até £1,6 bilhão (cerca de US$ 2,1 bilhões). É o maior remanejamento do mapa da TV aberta britânica em décadas e prova de que nem mesmo emissoras públicas tradicionais estão imunes à onda global de consolidação que já engoliu nomes como Paramount, Warner Bros. Discovery e Banijay.
O acordo não inclui a ITV Studios, o braço de produção responsável por franquias como I’m a Celebrity e Love Island. A produtora vai seguir como empresa independente e de capital aberto, decisão que a CEO da ITV, Carolyn McCall, apresentou como sinal de confiança do mercado no negócio de conteúdo separado da distribuição.
Como parte do pacote, a Sky também compra a Love Productions, responsável por atrações como The Great British Bake Off e The Great Pottery Throwdown. Além disso, as empresas fecharam um compromisso paralelo de investimento em conteúdo de cerca de £2,1 bilhões (US$ 2,8 bilhões) com a ITV Studios ao longo dos próximos cinco anos, o que garante receita à produtora mesmo fora do guarda-chuva da Sky.
O que muda (e o que não muda) para o telespectador
Apesar da mudança de controle, a Sky prometeu manter os canais da ITV e o ITVX gratuitos e abertos ao público até pelo menos 2034, prazo da licença de radiodifusão pública (Channel 3). Programas como Coronation Street, Emmerdale, This Morning e News at Ten continuam no ar sem alterações imediatas.
A Sky também se comprometeu a manter a redação da ITV News separada editorialmente da Sky News, um ponto sensível considerando o histórico de ceticismo britânico com concentração de mídia.
Dana Strong, CEO do Sky Group, chamou o negócio de “momento decisivo para a mídia britânica” e disse que a combinação une o melhor da TV aberta, da TV paga e do streaming. McCall, por sua vez, destacou que as obrigações de serviço público da ITV, incluindo jornalismo regional, seguem protegidas pelos termos da licença até 2034.
Regulação: o verdadeiro teste do acordo
Nada está garantido ainda. O negócio depende de aprovação regulatória no Reino Unido e McCall já avisou que não espera uma revisão rápida: a expectativa é de que o caso avance para uma segunda fase de análise, incluindo um teste de interesse público conduzido pela Competition and Markets Authority, pela Ofcom e pelo Departamento de Cultura, Mídia e Esporte.
O argumento da ITV para convencer os reguladores é que o mercado publicitário mudou demais para tratar Sky e ITV como concorrentes isolados: juntas, as duas responderiam por apenas cerca de 20% da publicidade em vídeo no Reino Unido, número pequeno diante da fatia que plataformas como o YouTube já capturam.
Cortes de empregos e o futuro das produtoras independentes
Pontos que devem gerar mais atenção nas próximas semanas:
- Empregos: sobreposições entre as equipes de marketing, tecnologia e aquisição de conteúdo não britânico devem gerar cortes — a ITV já havia eliminado 220 vagas na programação diurna no ano passado.
- ITV Studios como alvo de M&A: com a recente fusão entre Banijay e All3Media avaliada em 10 vezes o EBITDA, e a ITV Studios registrando EBITDA de £330 milhões em 2025, o mercado já especula sobre um possível comprador para a produtora assim que ela for listada de forma independente.
- Cotas para produtoras independentes: a legislação britânica de radiodifusão pública exige que 25% da programação qualificada venha de produtoras independentes, com 35% do conteúdo encomendado fora de Londres — regras que seguem valendo até 2034, independentemente do novo dono dos canais.
Por que isso interessa ao mercado brasileiro
O Brasil não assiste ITV, mas o movimento importa como termômetro. A lógica por trás do negócio, separar distribuição de produção e usar escala para negociar com gigantes americanos de streaming, é a mesma que orienta discussões em curso no mercado brasileiro sobre TV aberta, FAST channels e concentração de conteúdo. Fusões como Paramount Skydance/Warner Bros. Discovery e agora Sky/ITV reforçam que o modelo de “cada emissora por si” está perdendo força globalmente, inclusive entre operadoras e grupos de radiodifusão que atuam na América Latina.
Você acha que a fusão entre Sky e ITV é uma resposta necessária ao domínio dos streamers globais ou uma ameaça à pluralidade da mídia britânica? Comente abaixo.
