O mercado audiovisual global foi pego de surpresa com uma reversão de estratégia da The Walt Disney Company para 2026. Após anos priorizando o “tudo ou nada” no streaming, a gigante do entretenimento anunciou o relançamento de canais lineares em mercados onde a TV por assinatura ainda demonstra resiliência e valor publicitário.
Como você viu esta semana aqui, no Além da Tela, na Espanha o retorno já tem data marcada: 1º de abril de 2026 (e não é “mentira”). O Disney Channel, que havia migrado para a TV aberta e depois focado no digital, volta ao ecossistema das operadoras pagas para maximizar as receitas de subscrição. No Reino Unido e Irlanda, o movimento é semelhante: a marca Disney Jr. retornou às plataformas (como a Sky) no final de 2025, após um hiato de cinco anos. Nestas regiões, a Disney percebeu que o canal linear funciona como uma espécie de “vitrine de luxo” para o Disney+, e não apenas como um concorrente.
Brasil: O “Deserto” da TV por Assinatura
Enquanto europeus celebram o retorno do sinal, o cenário brasileiro é um balde de água fria para os nostálgicos. Por aqui, o Disney Channel, junto a marcas como Star Channel e National Geographic, foi oficialmente descontinuado em 28 de fevereiro de 2025. Atualmente, o grupo mantém apenas os canais ESPN no ar, sustentados pela exclusividade dos direitos esportivos ao vivo.
Existem razões estruturais que tornam o retorno do Disney Channel ao Brasil uma possibilidade remota. A primeira é a queda vertiginosa na base de assinantes. O Brasil perdeu milhões de clientes de TV paga nos últimos cinco anos, com o streaming (Disney+, Netflix, HBO Max, Prime Video) tornando-se a escolha principal em mais de 31 milhões de domicílios.
O Inimigo Invisível: Pirataria e IPTV
Além da crise econômica, a pirataria é o “golpe de misericórdia” na TV paga brasileira. O país é um dos líderes globais no consumo de sinais clandestinos via TV Box e IPTV. Estima-se que o setor perca cerca de R$ 15 bilhões por ano para serviços ilegais. Recentemente, operações contra redes de pirataria revelaram que apenas um grupo criminoso detinha 4,6 milhões de “assinantes” — um número superior à base total de clientes individuais de grandes operadoras, como a Claro.
Para a Disney, colocar um canal linear no ar no Brasil hoje significaria investir em uma infraestrutura cara para um público que, em grande parte, acessaria o conteúdo de forma ilegal ou já o possui via Disney+.
Conclusão: Um mercado em direções opostas
A volta do Disney Channel em alguns países prova que a TV linear ainda tem vida onde o mercado publicitário é forte e a pirataria é combatida com rigor. No Brasil, a estratégia da Disney é clara: consolidar tudo no streaming. A empresa prefere investir na proibição do compartilhamento de senhas e na migração forçada do usuário para o Disney+ do que tentar ressuscitar um modelo de TV paga que sangra assinantes mês após mês.
Infelizmente para o fã brasileiro, o “zapping” pelos canais Disney deve continuar sendo uma memória afetiva, enquanto o futuro se desenha estritamente sob demanda.
