Excepcionalmente nesta semana, esta coluna não terá a nota “Dez“. Não há espaço para celebrações quando o “Desce” é tão pesado que exige uma interrupção imediata na nossa programação habitual. O que assistimos nestes últimos dias do Big Brother Brasil 26 não foi apenas um “momento polêmico” de reality show; foi um atentado à dignidade humana e um convite ao abismo.
Nota Zero (Desce): O Horror proferido por Solange Couto
As falas de Solange Couto nesta semana ultrapassaram qualquer limite de jogo, convivência ou sanidade. Ao desabafar com Babu Santana, a participante disparou: “Eu nasci do prazer, não nasci de estupro, não! (…) Pessoa quando é infeliz assim deve ter nascido de trepada mal dada, sarro de trem!”. Não satisfeita, ela ainda atacou a incapacidade de uma mulher de gerar filhos, sentenciando que Deus não teria dado essa chance a ela por falta de “capacidade de amar”.
É inadmissível que, em 2026, com o acesso à informação que temos, frases carregadas de tamanha crueldade e ignorância sejam proferidas em rede nacional.
A Realidade Fora da Casa
Enquanto Solange usa o termo “estupro” de forma pejorativa e leviana para desqualificar o caráter de alguém, o Brasil sangra na vida real. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou um aumento recorde nos casos de violência contra a mulher nos últimos anos. Em 2024 e 2025, os índices de feminicídio mantiveram uma curva ascendente, com uma mulher sendo morta a cada seis horas por questões de gênero.
Quando uma figura pública associa a origem de uma pessoa a uma violência sexual (estupro) para justificar uma “infelicidade” ou “mau-caratismo”, ela não está apenas atacando um adversário de jogo. Ela está:
- Revitalizando o trauma de milhões de vítimas de violência sexual.
- Desumanizando pessoas que são frutos de gestações não planejadas ou violentas, como se a origem biológica determinasse o valor de um ser humano.
- Reforçando o machismo estrutural ao usar a infertilidade como uma “punição divina” por falta de amor, um ataque direto à autonomia e à dor de milhares de mulheres que sofrem com questões reprodutivas.
O Silêncio que Consente
O “Desce” também vai para a direção do programa. Permitir que falas desse teor ecoem sem um contraponto imediato, pedagógico e severo é compactuar com a cultura do ódio. O “cancelamento” nas redes sociais, neste caso, não é um tribunal inquisitório, mas uma reação natural de uma sociedade que não aguenta mais ver a violência — verbal ou física — ser tratada como “entretenimento de sofá”.
Não é “personagem”, não é “sangue quente”. É a exposição de uma mentalidade que retrocede décadas de lutas feministas e de direitos humanos. O BBB 26, que já vinha tropeçando em questões éticas nas semanas anteriores, agora parece ter perdido completamente a bússola moral.
Será que a audiência e o faturamento dos patrocinadores valem a manutenção de discursos que ferem a existência de tantas mulheres brasileiras?
