A cada trimestre, a mesma pergunta volta à mesa dos analistas de Wall Street: a Disney vai se desfazer dos seus canais de TV a cabo? Na teleconferência de resultados do segundo trimestre fiscal de 2026, realizada nesta quarta-feira (6), a nova cúpula da empresa deu a resposta mais direta até agora — e ela é não.
“Marcas com estúdios”, não canais moribundos
O CFO Hugh Johnston reformulou a narrativa ao descrever redes como FX, National Geographic e Freeform não como canais tradicionais, mas como “marcas com estúdios” que produzem conteúdo monetizado em múltiplas plataformas de distribuição. O raciocínio é claro: séries como The Bear e Shogun nascem sob o selo FX, mas geram receita no Hulu, no Disney+ e em licenciamentos internacionais. Separar produção de distribuição, segundo Johnston, seria uma operação complexa e pouco provável de gerar valor para os acionistas.
A declaração veio como parte de uma apresentação de resultados reformulada, que incluiu perguntas pré-selecionadas de analistas e uma carta de mais de 3 mil palavras aos acionistas — um formato inédito que sinaliza a intenção da gestão de Josh D’Amaro de controlar a narrativa com mais firmeza.
Os números sustentam a tese
Os resultados financeiros reforçam a lógica da integração. A receita da Disney no trimestre subiu 7% em relação ao ano anterior, atingindo US$ 25,2 bilhões, enquanto o lucro ajustado por ação chegou a US$ 1,57, acima dos US$ 1,45 do mesmo período em 2025.
O ponto-chave está na dinâmica entre linear e streaming. Johnston revelou que a Disney já gera mais que o dobro de receita em streaming do que em TV linear no segmento de entretenimento. A empresa inclusive parou de reportar separadamente os números de receita e lucro operacional das redes lineares — um sinal de que a relevância contábil desses ativos já é secundária.
Para a Morningstar, o declínio da TV paga tradicional já não representa uma ameaça crítica à Disney, graças à diversificação bem-sucedida entre streaming e parques temáticos.
Mas a especulação não morre
O mercado tem memória curta para declarações corporativas e longa para oportunidades de liquidação. Em 2023, o então CEO Bob Iger chegou a admitir publicamente que a empresa estaria aberta a vender ou desmembrar partes do portfólio de TV, incluindo ESPN, ABC, FX e Freeform. A Freeform, voltada ao público jovem, sempre foi vista como a peça mais periférica do quebra-cabeça da Disney. O National Geographic, apesar do prestígio, ocupa um nicho documental que poderia interessar a compradores especializados. E a FX, mesmo com o sucesso de Shogun, entrega um conteúdo adulto que destoa do DNA familiar da marca.
Fundos de private equity e conglomerados de mídia rivais continuam de olho em ativos com distribuição consolidada. Se o mercado linear seguir encolhendo — e ele vai — a tentação de monetizar esses selos separadamente pode superar a lógica da integração.
O jogo de transição
A estratégia da Disney sob D’Amaro e Johnston é essencialmente uma aposta de tempo: manter os canais enquanto a migração para streaming se completa, usando-os como fábricas de conteúdo que alimentam as plataformas digitais. É pragmático e faz sentido hoje. Mas “hoje” no mercado de mídia dura cada vez menos.
E você, acha que a Disney deveria segurar essas marcas até o fim da TV linear — ou vender enquanto ainda valem alguma coisa?
