Nesta segunda-feira, a coluna 10 ou Desce reflete sobre o abismo que separa a ficção bem cuidada da realidade mal conduzida. Enquanto uma novela das nove nos emociona com a verdade das relações humanas, o maior reality do país se afoga em um mar de negligência, falta de tato e erros de comando que beiram o sadismo.
Nota 10: O Afeto de Lorena e Juquinha em Três Graças
A nota máxima vai para a sensibilidade da narrativa envolvendo as personagens Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovski) em Três Graças. O destaque absoluto da última semana foi a cena em que Lorena revela à mãe (vivida por Andréia Horta) que sua relação com Juquinha transcende a amizade: elas são namoradas.
Foi um momento de “televisão estado de arte”. A cena foi escrita com uma delicadeza rara, dirigida com pausas precisas e interpretada com uma entrega visceral. Cada silêncio e cada troca de olhares construíram uma tensão real, que desaguou em um resultado de profundo carinho e afeto.
Mais do que entretenimento, a sequência prestou um serviço social. Sabemos que milhares de jovens enfrentam o pânico da rejeição ao compartilhar sua orientação sexual com a família. Ao mostrar um amparo acolhedor em pleno horário nobre, a novela oferece esperança e serve de espelho para diálogos necessários dentro de casa, substituindo a angústia pela conversa. Um acerto gigante de texto e humanidade.
Nota Zero (Desce): O Caos e a Falta de Tato do BBB 26
Se a ficção nos traz esperança, o BBB 26 nos entrega o horror. O programa, que deveria ser o carro-chefe da Globo, tornou-se um pesadelo para o público, para a emissora e para os patrocinadores. A nota zero é pouco para o que assistimos nos últimos dias.
Primeiro, o erro na “mão” da produção: o resgate do Quarto Branco transformou-se em uma prova insalubre. Manter participantes confinados com racionamento severo de água e apenas bolacha água e sal (alguém avisa à produção que isso não é nutrição?) ultrapassou o limite do desafio e entrou na zona do perigo físico. Quando um participante escancarou a precariedade da situação ao vivo, a resposta de Tadeu Schmidt foi fria, minimizando o sofrimento ao citar “médicos e nutricionistas” — um argumento que não convenceu ninguém.
Mas o fundo do poço veio na condução de um caso gravíssimo: a suposta tentativa de beijo forçado sofrida por uma participante. É aqui que falamos de Tadeu Schmidt. O apresentador parece ter perdido totalmente o prumo para o cargo.
É inadmissível que um jornalista entre no ar sorrindo e com semblante feliz para anunciar a desistência de um participante envolvido em uma acusação de violência contra a mulher. Não há espaço para sorrisos ao noticiar uma agressão. Para piorar, Tadeu prometeu espaço para a vítima se pronunciar e, logo em seguida, cortou o contato, silenciando-a em rede nacional. O ápice do descompasso — ou do sadismo — foi se despedir enviando um “beijo” para a vítima de uma tentativa de beijo forçado.
Falta bom senso, falta ética e, acima de tudo, falta respeito. O BBB 26 parou de ser um jogo para se tornar um estudo de caso sobre como não gerenciar uma crise humana.
A pergunta que fica: após tantos erros de condução, ainda há clima para Tadeu Schmidt continuar no comando do reality?
