Nesta quinta-feira, a coluna 10 ou Desce navega entre o fascínio por uma disputa familiar digna de roteiro de cinema e a indignação diante de um retrocesso civilizatório que insiste em ocupar o horário nobre da TV aberta.
Nota 10: O Testamento: O Segredo de Anita Harley (Globoplay)
A nota máxima vai para o documentário “O Testamento: O Segredo de Anita Harley“, recém-chegado ao Globoplay. A série mergulha no imbróglio judicial e familiar em torno da bilionária herdeira das Lojas Pernambucanas que, após entrar em coma, virou o centro de uma guerra por poder e por uma fortuna estimada em bilhões.
A produção é impecável. A narrativa é tão bem encadeada que o espectador se sente um observador privilegiado de um tabuleiro onde todas as peças são, no mínimo, cinzentas. O grande trunfo da série é não entregar heróis ou vilões caricatos: todos os envolvidos são questionáveis. Você assiste e, curiosamente, não consegue sentir empatia por ninguém, apenas um fascínio quase antropológico pela ganância humana.
O ponto alto, sem dúvida, é a participação das primas de Anita. Com um tom ácido e sem filtros, elas funcionam como a voz do público dentro da obra, comentando com um deboche necessário aquilo que quem está no sofá gostaria de gritar para a tela. É um “Casos de Família” com verniz de alta classe, mas com as mesmas baixarias que o dinheiro não consegue esconder. Um must-watch para entender o Brasil dos ultrarricos.
Nota Zero (Desce): Ratinho e a Transfobia no SBT
O “Desce” desta semana é pesado e carregado de indignação. Vai para o apresentador Ratinho e para o SBT, pela exibição de falas transfóbicas e violentas na última quarta-feira (11). Ao comentar a eleição da deputada Erika Hilton para presidir a Comissão da Mulher na Câmara, Ratinho destilou preconceito ao afirmar que a parlamentar “não é mulher” e que, para ser mulher, “tem que ter útero e menstruar“.
O discurso do apresentador não é apenas uma “opinião forte“; é um ataque direto à identidade de milhares de cidadãs. Invalidar a existência de mulheres trans em uma concessão pública é um ato de irresponsabilidade social sem precedentes. O Brasil é, pelo 16º ano consecutivo, o país que mais mata pessoas trans no mundo. Segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de apenas 35 anos, menos da metade da média nacional.
A fala de Ratinho alimenta o estigma que empurra essa população para a margem e para a violência. Em nota, o SBT afirmou repudiar a discriminação e disse que as declarações “não representam a opinião da emissora” e serão tratadas internamente.
Sinceramente? Notas de repúdio não apagam o tempo de antena cedido ao preconceito. É espantoso que uma emissora desse porte ainda permita que conceitos biológicos rasos e discursos de ódio sejam vendidos como entretenimento. Ser mulher não se resume a uma condição fisiológica de “ter útero”, e ser apresentador de TV não deveria ser uma licença para humilhar autoridades e cidadãos em rede nacional.
A pergunta que fica para o SBT é: o “tratamento interno” será proporcional à gravidade da ofensa ou veremos, mais uma vez, o silêncio ser usado para proteger o faturamento?
