Bastaram algumas horas para Wall Street entender o recado. As ações de AT&T, Verizon e T-Mobile caíram entre 5% e 8% nas negociações fora do pregão depois que a SpaceX anunciou, nesta quinta-feira (8), a compra de um lote nacional de frequências de baixa banda nos Estados Unidos. O motivo do pânico tem nome: Starlink Mobile, a aposta de Elon Musk para vender linha de celular sem depender de nenhuma operadora.
A transação, avaliada em cerca de US$ 8 bilhões, ainda precisa do aval da FCC, a agência reguladora de telecomunicações americana. Ela envolve até 14 MHz de espectro pareado na faixa de 800 MHz, comprado da Grain Management, empresa de infraestrutura digital.
Por que 800 MHz vale tanto
Frequências baixas são o “4×4” das telecomunicações. O sinal viaja mais longe e atravessa paredes, árvores e prédios com muito mais facilidade do que as faixas altas. Para um serviço que sai do espaço, isso faz toda a diferença.
Hoje, a conexão direta entre satélite e celular funciona bem a céu aberto, mas sofre em ambientes fechados. Segundo a SpaceX, o novo espectro resolve justamente esse gargalo e permite atender o usuário dentro de casa e do escritório. Outro trunfo: a maioria dos smartphones atuais já é compatível com a faixa, o que dispensa troca de aparelho.
O lote tem um histórico curioso. A T-Mobile herdou essas licenças na compra da Sprint, mas nunca as colocou em uso, e as repassou à Grain em troca de US$ 2,9 bilhões e de frequências de 600 MHz. Em agosto, a Bloomberg informou que a Grain pedia cerca de US$ 6 bilhões pelo pacote, que tinha a AST SpaceMobile, principal rival da Starlink no segmento, entre as interessadas. Se o valor de US$ 8 bilhões se confirmar, a SpaceX pagou um prêmio considerável para ficar com o ativo.
Os números por trás da ofensiva
A SpaceX não chega ao mercado de telefonia como novata sem caixa. Avaliada em mais de US$ 2 trilhões após o IPO recorde de junho, a empresa exibe uma operação de satélites que já se paga:
- Mais de 12 milhões de assinantes do Starlink no mundo, sendo mais de 4 milhões nos EUA (estimativa)
- US$ 4,29 bilhões de receita no primeiro semestre de 2026
- US$ 1,66 bilhão de lucro operacional no mesmo período
- Mais de 11 mil satélites em órbita
A compra também se soma a outra aquisição de peso. A SpaceX já havia comprado licenças de espectro da EchoStar por US$ 17 bilhões, operação liberada pela FCC.
Ainda falta muito chão (e muita torre)
Na visão de analistas do setor, 14 MHz é uma fatia modesta perto do que as grandes teles detêm. David Barden, da New Street Research, lembra que as principais operadoras americanas somam cerca de 1.020 MHz de espectro, contra 65 MHz da SpaceX, e classifica como extremamente difícil construir uma rede em um mercado saturado.
Para oferecer serviço de alta capacidade em grandes cidades, a SpaceX precisará instalar torres terrestres que complementem os satélites. A empresa já sinalizou que pretende fazer isso, mas não divulgou cronograma. A estratégia mira um modelo híbrido: cobertura orbital em todo o território e infraestrutura em solo onde a demanda exigir. O próximo passo lógico seriam pacotes que combinem banda larga e plano de celular, sem intermediários.
As teles, por sua vez, já se mexeram. As três gigantes formaram recentemente uma joint venture para levar cobertura via satélite a áreas desassistidas, e a Starlink ficou de fora. Enquanto isso, a FCC prepara o leilão de mais espectro para serviços diretos ao celular e discute regras que podem liberar centenas de megahertz adicionais para os operadores de satélite.
E no Brasil?
As frequências compradas valem apenas nos Estados Unidos, então nada muda de imediato para o consumidor brasileiro. Mas o movimento indica para onde a Starlink caminha, e o Brasil está no mapa. O país já é o segundo maior mercado da empresa no mundo, com mais de 1 milhão de clientes, atrás apenas dos EUA.
Por aqui, a conexão direta no celular ainda não opera comercialmente. A previsão é de lançamento em 2027, começando pela liberação de mensagens de texto (SMS). O ponto de atenção é regulatório: com o novo Regulamento Geral dos Serviços de Telecomunicações, que entra em vigor em 30 de outubro, a Starlink poderia pedir uma outorga de Serviço Móvel Pessoal e operar no modelo direto ao celular sem parceria com operadoras locais.
Em outras palavras: o roteiro que assusta Wall Street hoje pode, em alguns anos, ser reprisado em Brasília.
E você: trocaria sua operadora por um plano de celular da Starlink se ele chegasse ao Brasil? Conta pra gente nos comentários!
