O lançamento do +SBT, plataforma de streaming gratuita da rede do eterno Silvio Santos, chegou ao mercado em 2024 com a promessa de modernizar a presença do canal e criar uma ponte com as novas gerações. No entanto, após os primeiros anos de operação, a estratégia da empresa tomou um rumo peculiar: em vez de rivalizar com plataformas como Globoplay por conteúdos inéditos e formatos novos, o serviço consolidou-se fundamentalmente como um repositório de nostalgia e acervo histórico.
A reafirmação dessa identidade “memorial” ganhou ainda mais força com a criação de iniciativas como a Sessão Mais SBT, que resgata no canal aberto alguns programas icônicos, novelas antigas, prêmios e especiais para celebrar a trajetória da emissora na marca de seus 45 anos. Utilizando a marca de um serviço de streaming.

A obsessão pela nostalgia
Se por um lado o resgate de programas históricos atinge em cheio o público mais maduro e nostálgico, por outro escancara uma limitação estrutural da emissora: a baixa capacidade de investir em produções originais de peso para o ambiente digital.
Enquanto concorrentes diretos no ecossistema de mídia investem na contratação de criadores de conteúdo, reality shows exclusivos para o streaming, o +SBT parece acomodado em reexibir o que já foi produzido nas décadas passadas, ancorado, principalmente, na figura de Silvio Santos.

- Envelhecimento da base de espectadores: A dependência de programas dos anos 1980, 1990 e 2000, como Fantasia, Programa Livre, Jô Soares e Hebe, atrai quem viveu aquela época, mas falha em engajar os jovens que hoje consomem TikTok, YouTube e canais FAST.
- Escassez de originais: A ausência de novos formatos de sucesso criados exclusivamente para a plataforma, com recorrência, limita o valor percebido do serviço.
- Passividade operacional: Transformar o aplicativo +SBT em um museu audiovisual custa barato do ponto de vista de licenciamento, mas não gera novos ativos para o catálogo da empresa a longo prazo.

Os 46 anos chegam logo: Haverá o que celebrar quando o SBT fizer 50 anos?
Com o avanço do calendário rumo aos 46 anos do SBT, o modelo levanta uma provocação inevitável para o mercado audiovisual brasileiro. A estratégia de olhar apenas pelo retrovisor consome o capital afetivo construído nas últimas quatro décadas, mas não constrói a herança das próximas.
Caso a emissora continue sem capacidade (ou disposição?) de financiar e arriscar em produções inéditas no streaming durante os próximos anos, surge o questionamento: quando o SBT completar meio século de história na marca dos 50 anos, haverá conteúdos relevantes produzidos nesta década recente para serem celebrados e relembrados no acervo?
Viver da memória de Silvio Santos e das grandes produções do passado garante audiência imediata por afeto, mas a sobrevivência no streaming exige capacidade contínua de inovação e renovação de catálogo.
