Brasil já transmitiu TV em cores usando o sistema americano NTSC

Entre 1962 e 1967, emissoras como Excelsior, Tupi e Globo fizeram transmissões experimentais em NTSC antes que o país adotasse seu próprio padrão

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Quando se fala em TV em cores no Brasil, o marco oficial é fevereiro de 1972, com a Festa da Uva de Caxias do Sul transmitida em PAL-M. Mas o que pouca gente sabe é que, quase uma década antes, emissoras brasileiras já haviam colocado imagens coloridas no ar — usando o sistema americano NTSC. O problema era que quase ninguém tinha como assistir.

1962: a Excelsior sai na frente

A primeira emissora a experimentar a TV em cores no Brasil foi a TV Excelsior de São Paulo. Em 1962, a emissora produziu o “Moacyr Franco Show” — então o programa de maior audiência do canal 9 paulista — utilizando o sistema NTSC de procedência americana. Era uma transmissão em cores completa, feita com equipamentos importados, mas que só podia ser vista por quem tivesse um televisor em cores em casa.

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E quantos brasileiros tinham um? Muito poucos. As leis protecionistas da época tornavam a importação de televisores proibitivamente cara. Estimava-se que existiam cerca de 400 aparelhos com capacidade para receber sinal em cores em todo o país. Eram peças de luxo, trazidas do exterior por famílias abastadas.

Cerca de 400 televisores em todo o Brasil podiam captar o sinal em cores. A TV colorida existia — mas quase ninguém a via.

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1963: Tupi e Excelsior ampliam os testes

No ano seguinte, as experiências se multiplicaram. Em 1º de maio de 1963, a Rede Tupi realizou a primeira transmissão em cores oficialmente registrada, ainda no sistema NTSC. Menos de dois meses depois, em 28 de junho, a TV Excelsior foi além: fez a primeira transmissão externa ao vivo em cores no Brasil, de um show no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Nesse período, além de programas de estúdio, as emissoras também passaram a exibir seriados americanos que já eram produzidos em cores, como “Bonanza“. Para o punhado de telespectadores com aparelhos compatíveis, era possível ver o faroeste em cores enquanto o resto do país assistia ao mesmo programa em preto e branco.

Também a TV Record entrou nas experimentações em 1964, sempre utilizando o NTSC. Mas a realidade era a mesma: sem aparelhos acessíveis no mercado nacional, as transmissões coloridas eram pouco mais do que demonstrações técnicas.

1967: a Globo entra no jogo — e o governo decide

Em 1967, a TV Globo realizou suas próprias experiências em cores, novamente com o sistema NTSC. Programas como a “Discoteca do Chacrinha” e “Dercy de Verdade” foram ao ar em cores, embora a esmagadora maioria do público continuasse vendo tudo em preto e branco.

Foi nesse mesmo ano que o Conselho Nacional de Telecomunicações (CONTEL) tomou a decisão que encerraria a questão: pela resolução nº 20 de 1967, o Brasil adotou oficialmente o sistema PAL-M como seu padrão de TV em cores. O NTSC, que vinha sendo usado nas experiências, foi descartado como opção para o sistema definitivo.

Por que não ficou com o NTSC?
O NTSC era a escolha mais óbvia, já que operava sobre o mesmo padrão M de vídeo usado no Brasil. Mas o sistema americano sofria com instabilidade de cor — problema agravado pelas condições brasileiras de transmissão, com longas distâncias e infraestrutura menos robusta. O PAL alemão oferecia cores mais estáveis. A solução foi criar o PAL-M: a codificação de cor do PAL europeu adaptada para funcionar dentro do padrão M, mantendo a compatibilidade com os televisores em preto e branco existentes.

Copa de 1970: o ensaio geral entre dois mundos

Se o padrão já estava definido desde 1967, a Copa do Mundo de 1970, no México, funcionou como ensaio geral. A Embratel organizou uma transmissão especial em cores do mundial, reunindo convidados em sua sede no Rio de Janeiro, no Edifício Itália em São Paulo e em Brasília.

O detalhe técnico é revelador: o sinal da Copa chegava do México codificado em NTSC — o padrão daquele país. A Embratel então convertia o sinal em tempo real para PAL-M antes de distribuí-lo aos aparelhos instalados nos três pontos de exibição. Era uma operação experimental, assistida por pouquíssimas pessoas, mas que demonstrou na prática que o novo sistema brasileiro funcionava.

Poucos brasileiros viram a Copa de 70 em cores. A imensa maioria acompanhou os gols de Pelé, Jairzinho e Tostão da forma como estava acostumada: em preto e branco, no padrão M puro que vinha dos anos 1950.

Linha do tempo: a cor antes da cor oficial

  • 1962
    TV Excelsior de São Paulo transmite o “Moacyr Franco Show” em cores, usando o sistema NTSC. É a primeira experiência de TV em cores no Brasil.
  • 1º de maio de 1963
    Rede Tupi realiza a primeira transmissão em cores oficialmente registrada, em NTSC.
  • 28 de junho de 1963
    TV Excelsior faz a primeira transmissão externa ao vivo em cores, de um show no Parque do Ibirapuera.
  • 1964
    TV Tupi exibe aos sábados o seriado americano “Bonanza” em cores, via NTSC. TV Record também faz experimentações.
  • 1967
    TV Globo transmite “Discoteca do Chacrinha” e “Dercy de Verdade” em cores (NTSC). No mesmo ano, o CONTEL adota oficialmente o PAL-M pela resolução nº 20.
  • 1970
    Embratel transmite a Copa do Mundo do México em cores para convidados em três cidades, convertendo o sinal de NTSC para PAL-M em tempo real.
  • 19 de fevereiro de 1972
    Primeira transmissão oficial em cores no Brasil, em PAL-M: a Festa da Uva de Caxias do Sul.

Um capítulo esquecido

A fase NTSC da televisão brasileira costuma ser tratada como nota de rodapé na história da TV. E de certa forma era: com apenas algumas centenas de aparelhos capazes de receber o sinal em cores, as transmissões experimentais dos anos 60 não chegaram ao grande público. Foram vitrines tecnológicas, demonstrações de prestígio para as emissoras e curiosidades para uma elite que podia pagar por televisores importados.

Mas esse período foi importante. As experiências com NTSC mostraram na prática as limitações do sistema americano — especialmente a instabilidade de cor que, nas condições brasileiras, se tornava ainda mais evidente. Foram essas constatações que ajudaram a pavimentar o caminho para a escolha do PAL-M: um sistema que pegou o que o NTSC tinha de bom (a compatibilidade com o padrão M já instalado) e substituiu o que tinha de ruim (a codificação de cor) pela tecnologia alemã do PAL.

O NTSC não foi apenas cogitado no Brasil. Ele esteve no ar. Só não ficou.

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