Transformar qualquer TV em uma central de entretenimento sem pagar mensalidade: essa é a promessa do VX Smart, receptor híbrido lançado pela Vivensis em parceria com a Globo em janeiro de 2025, com preço sugerido de R$ 499 e disponível no Mercado Livre com opções entre R$ 287 e R$ 599 dependendo do vendedor. O aparelho une acesso à TVRO (TV via satélite de recepção livre) no padrão digital DVB-S2 com um sistema Android TV certificado pelo Google e, no papel, é uma proposta difícil de ignorar.
Mas papel é diferente de uso real. Testamos o VX Smart por mais de um ano. O veredicto é: funciona bem dentro do que se propõe, mas carrega limitações que vão incomodar usuários mais exigentes.
O que impressiona
A qualidade de imagem é o ponto alto sem discussão. O VX Smart entrega suporte a 4K, HDR10 e HDR10+, com upscaling convincente para conteúdo em resoluções menores. Vale a nota: no momento não existe nenhum canal transmitindo em 4K via parabólica no Brasil, o upscaling faz o trabalho por enquanto, mas o hardware já está preparado para quando isso mudar. Em meados de 2025, chegou a aparecer um sinal-teste da Record TV com qualidade excepcional, o que mostra o potencial real do sistema.
O áudio também agrada. A saída S/PDIF óptica é um diferencial raro nessa faixa de preço e entrega o sinal sem perdas para quem tem um home theater compatível.

A conectividade é outro acerto: Wi-Fi Dual Band (2,4 e 5 GHz) e Bluetooth 5.0 funcionam sem drama. O controle remoto com microfone integrado para o Google Assistente reduz a necessidade de ficar digitando na telinha e ele também comanda o volume e a entrada da sua TV, o que evita aquela coleção de controles no sofá.
Um detalhe positivo e pouco comentado: durante o cadastro inicial via QR Code, o sistema reconhece a localização do usuário e carrega automaticamente as afiliadas regionais corretas, a Globo local, a Band regional e assim por diante. A troca de canais é rápida, sem o lag típico de receptores mais simples.
O sistema Android TV permite instalar os principais streamings via Google Play, inclusive apps de canais FAST como Pluto TV e MovieArk. Por ser certificado pelo Google e pela Netflix (Widevine L1), não há gambiarras: os apps são instalados normalmente e entregam qualidade máxima. Para quem mora em área sem acesso a TV paga via cabo, é uma combinação genuinamente poderosa.
O que deixa a desejar
Aqui mora a tensão. O VX Smart roda Android TV 12, versão que, quando o aparelho chegou ao mercado, já estava dois ciclos atrás. No Google I/O 2025, a empresa lançou o Android TV 14 como versão estável e o Chromecast com Google TV recebeu essa atualização em março de 2025. O VX Smart, lançado em janeiro do mesmo ano, nunca saiu do 12 e o Google determinou que apps para Android TV precisam ser direcionados ao Android 13 ou superior para continuarem disponíveis em dispositivos com versões mais recentes do sistema. Na prática, isso significa que, com o tempo, alguns aplicativos podem simplesmente parar de aparecer na Play Store do aparelho.
O patch de segurança também ficou parado em maio de 2025 — mais de um ano sem atualização no momento desta análise.

A memória é outro gargalo. Com apenas 2 GB de RAM e 8 GB de armazenamento, o receptor acorda lerdo. Nos primeiros minutos após ligar, a navegação é visivelmente engasgada; só depois que o sistema aquece (literalmente e figurativamente) é que a fluidez melhora.
Instalar Netflix, Disney+, HBO Max e mais dois ou três apps ao mesmo tempo transformou o aparelho num slideshow — optamos por manter os streamings principais em outro dispositivo.
Em um ano de testes, o aparelho precisou ser resetado para o padrão de fábrica três vezes. Em uma dessas ocasiões, a imagem simplesmente sumia após alguns minutos de uso, a solução foi desativar o HDR automático nas configurações.
Alerta: bug grave em 4K via YouTube
Este é o ponto mais crítico desta análise e o que mais pode impactar quem compra o aparelho hoje.
Usuários reportaram artefatos visuais graves, distorções e travamentos de imagem, ao tentar assistir à CazéTV pelo YouTube em 4K a 60fps. O problema torna as transmissões ao vivo praticamente inutilizáveis nessa qualidade e os testes indicam que é exclusivo do VX Smart: outros aparelhos da mesma faixa de preço (Fire TV Stick, Mi TV Stick, Mecool KM7) não apresentaram a falha no mesmo conteúdo. A solução paliativa é reduzir a qualidade para 1080p a 60fps, o que elimina os artefatos, mas também elimina o argumento central de venda do produto.
Não está claro se é uma limitação de hardware ou se pode ser corrigida via atualização de software. O que está claro é que, para quem quer assistir transmissões da Copa ao vivo em 4K via Youtube, o VX Smart não é confiável no momento.
A interface que virou vitrine da Globo
A tela inicial do VX Smart é, essencialmente, um painel de promoção do Globoplay. Os destaques exibidos na parte superior da tela mostram conteúdos em evidência no streaming da Globo, mas ficam desatualizados com frequência e só voltam ao normal após um reset de fábrica. Para um receptor que se propõe a ser multiplataforma, isso soa como uma escolha editorial que favorece um parceiro comercial específico. Na parte inferior da tela, o sistema exibe atalhos para os canais ao vivo do grupo Globo (alguns exigem assinatura).

Limitações do ecossistema parabólica
Por trabalhar com o Sat HD Regional do satélite Star One D2, o VX Smart não permite instalar facilmente canais abertos disponíveis no mesmo satélite que não façam parte da TVRO, como os canais da grade da Claro ou da Nossa TV. A edição da lista de canais e a numeração também são travadas: não é possível reorganizar ou personalizar. Canais que mudaram de logo recentemente (como a TV Gazeta) ainda aparecem com a identidade visual antiga. Diversos canais, entre eles o SBT News, não possuem o logo no sistema.
Adicionar uma nova parabólica ao sistema também não é intuitivo. Quem sonha em descobrir novas transponders e sinais livres vai se frustrar: o VX Smart foi projetado para fazer bem uma coisa específica, e o faz, mas sem espaço para exploração.
Ficha técnica resumida
CPU: Quad-core ARM Cortex-A55
RAM / Armazenamento: 2 GB DDR4 / 8 GB eMMC
Sistema: Android TV 12
Resolução: 4K, com suporte a HDR10, HDR10+ e HLG
Conectividade: Wi-Fi 5 Dual Band, Bluetooth 5.0, HDMI 2.1, USB 3.0 + USB 2.0, S/PDIF óptico
Sintonizador: DVB-S / DVB-S2 / DVB-S2X, banda KU universal
DRM: Widevine L1 (qualidade máxima nos streamings)
Garantia: 2 anos
Preço médio: R$ 287 a R$ 599
Vale comprar?
O VX Smart é um produto honesto para o seu público-alvo: moradores de áreas sem TV paga via cabo, famílias com TVs antigas que querem acesso aos streamings, e usuários que já têm antena parabólica e querem um receptor moderno. A qualidade de imagem e áudio está acima do esperado para a faixa de preço, e a certificação Widevine L1 garante Netflix e Prime Video em qualidade máxima.
O problema é que o aparelho saiu de fábrica com um sistema já defasado, recebeu pouco suporte de software desde então, tem memória insuficiente para uso intenso e apresenta um bug documentado em transmissões 4K via YouTube que ainda não foi corrigido.
Se o seu plano é substituir um smart TV box de uso intenso, provavelmente vai se arrepender. Se o objetivo é ter parabólica digital com acesso básico a streaming no mesmo aparelho e você não pretende usar a CazéTV em 4K, é uma solução competente, especialmente nas faixas abaixo de R$ 350.
A Vivensis preparou um equipamento, o entregou para o mercado e esqueceu de atualizar.
Você usaria um receptor híbrido como o VX Smart, ou prefere manter parabólica e streaming em aparelhos separados?
