Paramount pode vender Nickelodeon para destravar fusão Warner

Pressionada por Bruxelas, a empresa de David Ellison aceita abrir mão de ativos históricos para concluir o negócio de US$ 110 bilhões

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Poucas marcas resumem a infância de gerações inteiras como a Nickelodeon. Mesmo assim, ela virou moeda de troca. Para destravar a maior fusão recente do entretenimento, a Paramount Skydance sinalizou que aceita se desfazer de parte de seus canais infantis na Europa. O movimento revela, com clareza, o que ainda importa e o que é descartável na nova lógica da indústria.

O que Bruxelas não engoliu

A Comissão Europeia tem até 7 de julho para liberar o negócio ou abrir uma investigação aprofundada. O ponto sensível é óbvio para qualquer pai de criança: a sobreposição entre a Nickelodeon, da Paramount, e o Cartoon Network, da Warner Bros. Discovery, dois dos canais infantis mais proeminentes do mercado. O peso é real: cerca de metade dos canais infantis na Europa é controlada por empresas americanas.

A Paramount prefere não vender nada. Mas está aberta a sacrificar canais infantis caso a UE aponte riscos à concorrência, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg. Os reguladores europeus também passaram a examinar como a empresa combinada afetaria o setor de exibição cinematográfica, ouvindo inclusive operadores de salas.

E a Europa não é o único front. As frentes regulatórias abertas hoje são:

  • União Europeia: prazo de 7 de julho; foco no segmento infantil e em cinema.
  • Estados Unidos: o DOJ caminha para aprovar, mas uma coalizão de cerca de 10 estados, liderada pela Califórnia, prepara ação para bloquear a fusão.
  • Subsídios estrangeiros: a UE também avalia o negócio sob sua nova regulação contra capital estatal externo, já que um trio de fundos do Oriente Médio acertou aportar cerca de US$ 24 bilhões para bancar a oferta — entre eles o fundo soberano saudita (PIF) e o do Catar.

A conta de US$ 110 bilhões

O número impressiona, mas tem explicação. A oferta da Paramount avalia a WBD em US$ 31 por ação, ou cerca de US$ 77 bilhões, e inclui o estúdio Warner Bros., o HBO Max e canais a cabo como a CNN. Somada à dívida da Warner, a conta passa de US$ 110 bilhões.

O acordo foi assinado em fevereiro, um dia depois de a Netflix desistir da disputa pelos ativos de estúdio e streaming da WBD. Os acionistas da Warner aprovaram a fusão em abril, com conclusão possível até o terceiro trimestre de 2026. O relógio, porém, corre contra David Ellison: se o negócio não fechar até 30 de setembro, os acionistas da WBD passam a receber uma “taxa de espera” de US$ 0,25 por ação a cada trimestre. Há ainda uma multa de rescisão de US$ 7 bilhões caso os reguladores barrem o acordo.

Por que abrir mão da Nickelodeon faz sentido

Sacrificar uma marca cultuada parece contraintuitivo. Na visão do mercado, não é. O verdadeiro motor do negócio é a fusão de Paramount+ e HBO Max num serviço capaz de rivalizar com a líder Netflix e com Amazon e Disney. Ao lado disso, um portfólio de franquias (Harry Potter, DC, Game of Thrones, Missão: Impossível, Top Gun) que gera receita por assinatura, licenciamento e exploração de personagens.

Segundo analistas, a hierarquia ficou explícita: alguns ativos servem para aprovar a fusão, mas são o streaming, as franquias e a escala global que justificam o cheque bilionário. Um canal linear infantil, por mais nostálgico que seja, entra na primeira categoria.

E para o assinante brasileiro?

Aqui vale o freio de arrumação. A venda em discussão é um remédio europeu, feito para satisfazer Bruxelas, não para mexer na grade brasileira. Ninguém no Brasil deve perder o Cartoon Network por causa de uma divestidura restrita à Europa. Por aqui já não existe mais o canal Nickelodeon.

O que importa por aqui é o efeito de segunda ordem. A consolidação reúne sob o mesmo grupo HBO Max e Paramount+, além de marcas de TV paga que já dividem espaço nas operadoras nacionais. Qualquer reorganização global de catálogo e de canais lineares tende, mais cedo ou mais tarde, a respingar na oferta local e o negócio ainda precisará passar pelo crivo do Cade antes de qualquer integração efetiva no país.

E você: trocaria o Bob Esponja por um streaming mais forte, ou prefere a TV infantil do jeito que ela sempre foi? Conta aí nos comentários.

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