O último sábado de agosto divide a grade entre dois filmes que apostam em protagonistas improváveis: um psiquiatra que alega ter matado 11 pessoas e um adolescente paranaense que derrubou parte da internet do Brasil ainda antes dos 16 anos. A partir das 22h, HBO e Telecine Premium encerram o mês com programações distintas em tom, origem e escala — os dois já disponíveis no streaming.
HBO: Relatos de um Assassino
Dirigido por Jo Young-joon, Relatos de um Assassino (Murderer Report, 2025) aposta em uma premissa que funciona exatamente por sua contenção radical: quase tudo se passa numa única suíte de hotel, com dois personagens frente a frente. A jornalista veterana Baek Seon-joo (Cho Yeo-jeong) aceita entrevistar o psiquiatra Lee Yeong-hun (Jung Sung-il), que afirma ter assassinado 11 pessoas e quer contar sua história. O que começa como uma entrevista investigativa se transforma progressivamente em uma guerra psicológica que coloca em xeque as certezas morais de ambos.
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O mistério e as reviravoltas são o grande trunfo do filme: a escrita usa pistas falsas de maneira criteriosa e mantém o espectador engajado sem recorrer ao excesso de ação que o gênero costuma demandar. Para quem conhece o cinema sul-coreano, o nome de Cho Yeo-jeong já é argumento suficiente — ela é a mesma atriz de Parasita, o vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2020. Aqui, entrega urgência e vulnerabilidade em doses calculadas, enquanto Jung Sung-il constrói um antagonista que raramente levanta a voz — e é mais perturbador por isso.
O filme ainda não tem Tomatômetro consolidado no Rotten Tomatoes, mas o IMDb registra 6,5 com mais de 1,2 mil avaliações. Parte da crítica especializada em cinema asiático já o descreve como um dos melhores filmes coreanos do ano. Para quem aceita o jogo proposto — diálogo como tensão, sala como mundo —, Relatos de um Assassino recompensa com generosidade.
Telecine Premium: O Rei da Internet
Dirigido por Fabrício Bittar e estrelado por João Guilherme, O Rei da Internet (2026) narra a história real de Daniel Nascimento, um adolescente paranaense que se tornou peça-chave de uma das maiores organizações criminosas virtuais do Brasil nos primórdios da web — acumulando milhões de reais em golpes cibernéticos e vivendo uma vida de ostentação antes de completar 17 anos. Ao longo da trama, ele invade servidores nacionais e internacionais, incluindo sistemas do governo brasileiro, e protagoniza o ataque à rede da Telemar — episódio que deixou parte do Nordeste sem internet por uma semana.
Ambientado entre 2004 e 2005, o filme acompanha a escalada de Daniel de esquemas de baixo risco até a entrada em uma quadrilha de hackers comandada pelo vigarista Fábio (Marcelo Serrado), cuja lavagem de dinheiro transforma a adolescência do protagonista em pura ostentação — até o inevitável cerco da Polícia Federal. A coprodução do Telecine explica a chegada relativamente rápida ao canal, apenas três meses após a estreia nos cinemas.
A recepção crítica surpreendeu positivamente. O Omelete destacou que o filme argumenta algo mais sofisticado do que parece à primeira vista: que a euforia de Daniel diante do crime é a mesma que associamos ao sucesso há séculos — só um pouco mais rápida do que estávamos acostumados. O Cinema com Rapadura elogiou a montagem acelerada e agressiva, que reproduz a linguagem fragmentada das redes sociais dos anos 2000 como o grande trunfo estético da obra. O elenco de apoio — com Marcelo Serrado em grande forma e Débora Ozório — é apontado de forma recorrente como ponto alto. O único tropeço nas avaliações é o ritmo da segunda metade, que insiste nos mesmos estímulos até cansar parte do impacto inicial. João Guilherme, por sua vez, entrega seu primeiro grande papel adulto em tela — e convence.
Agosto fecha com dois filmes que, cada um ao seu modo, perguntam até onde uma pessoa vai quando não tem mais nada a perder — ou tudo a ganhar.
E você, encerra o mês com o thriller coreano da HBO ou a aventura hacker brasileira do Telecine?
