O modelo de negócios que revolucionou a forma como o mundo consome audiovisual chegou ao seu limite estrutural. É o que afirma o influente analista de mídias digitais Evan Shapiro. Para o especialista, a “Era Netflix” como conhecínhamos está oficialmente encerrada.
Segundo o analista, a empresa que antes destruiu a televisão tradicional por assinatura transformou-se exatamente naquilo que prometeu combater: uma versão digitalizada da TV aberta (como a CBS, no caso da TV americana), cobrando mensalidades cada vez mais altas por um catálogo diluído e apelando para estratégias que antes renegava publicamente, como publicidade, transmissões de esportes ao vivo e a busca por criadores do YouTube e TikTok.
A análise vem a público no momento de maior pressão sobre a empresa nos últimos anos, marcado pela demissão imediata de sua Chief Content Officer (CCO), Bela Bajaria, pelo encerramento de mais de 1.000 postos de trabalho e pelas sequelas do fracasso na tentativa de aquisição da Warner Bros. Discovery, hoje Skydance.
As quatro “viradas de casaca” do modelo da Netflix

Para sustentar a tese de que o modelo original da plataforma esgotou, Shapiro destaca quatro contradições históricas adotadas pela liderança para tentar manter as metas de receita exigidas por Wall Street:
Aposta em esportes ao vivo: Após anos jurando que jamais investiria em direitos esportivos por conta dos custos, a plataforma passou a despejar bilhões em ligas e eventos esportivos.
Publicidade no catálogo: A promessa de um ambiente totalmente livre de comerciais foi substituída pelo lançamento e forte impulso de planos com anúncios.
Migração para o modelo linear: A rejeição histórica à “TV linear” deu lugar à agregação de canais contínuos e transmissões ao vivo dentro da interface.
Dependência de criadores digitais (creators): O desdém inicial pelas produções estilo YouTube deu lugar a uma busca ativa por influenciadores digitais e pela cópia de estratégias do TikTok.
Fracasso com a Warner e demissão de lideranças

Segundo a análise, o sinal definitivo de desgaste na estratégia da Netflix ocorreu no ano passado, durante a tentativa de adquirir a Warner Bros. Discovery por um valor considerado acima do mercado. A disputa acabou vencida pela Paramount (sob a nova gestão da Skydance), resultando no pagamento de US$ 2,8 bilhões em multa de rescisão (breakup fees) para a Netflix. Embora a transação tenha gerado caixa imediato, o episódio consumiu nove meses de foco estratégico da empresa.
Para mascarar a queda no engajamento e a rejeição dos assinantes ao bloqueio de compartilhamento de senhas e às sucessivas altas de preços, a alta cúpula da plataforma estaria promovendo demissões em massa para acalmar o mercado financeiro.
A demissão de Bela Bajaria, responsável por toda a programação global da empresa, e o anúncio de 1.000 demissões ocorrem às vésperas da divulgação do balanço trimestral da companhia. Para Shapiro, trata-se de uma manobra histórica de comunicação corporativa B2B para desviar a atenção dos investidores em relação aos desafios estruturais da marca.
A ameaça do vídeo social (YouTube e TikTok)

O fim da hegemonia do streaming puramente focado em filmes e séries ocorre pela ascensão vertiginosa das plataformas sociais. A atenção e o tempo de tela, especialmente do público jovem, migraram em massa para o YouTube e o TikTok, que operam com custos de produção infinitamente menores.
Ao tentar abraçar todos os formatos ao mesmo tempo — esportes, novelas, realities, filmes de grande orçamento e vídeos de criadores —, a Netflix corre o risco de perder sua identidade de marca premium, tornando-se, nas palavras do analista, a “equivalente a uma loja de departamentos popular, mas cobrando preços de uma joalheria de luxo”.
Quem é Evan Shapiro
Evan Shapiro é um renomado analista de mídias digitais, produtor executivo vencedor do Emmy e do Peabody, e professor universitário na NYU e Fordham. Conhecido no mercado audiovisual como o “cartógrafo do ecossistema de entretenimento” por seus mapas visuais da economia dos canais e serviços digitais, Shapiro é uma das vozes mais influentes do setor na análise das transformações da TV, do streaming e da migração da audiência para as redes sociais e a economia de criadores.
