A despedida de Stephen Colbert do Late Show, na última quinta-feira (21), rendeu 6,74 milhões de espectadores — o episódio noturno mais assistido de toda a história do programa na CBS. O número supera até a estreia de Colbert, em 2015, que reuniu 6,55 milhões. Parece grandioso. Mas coloque lado a lado com os 55 milhões que assistiram à despedida de Johnny Carson do Tonight Show, em 1992, e o que era celebração vira diagnóstico.
A diferença não é apenas geracional. É estrutural. O abismo entre esses dois números resume três décadas de fragmentação da audiência, migração para o streaming e erosão do modelo de TV linear que sustentou a indústria americana — e, por reflexo, a brasileira — durante meio século.
Um recorde agridoce
O resultado é agridoce para Colbert, já que o fim do programa não foi escolha dele. A CBS decidiu no verão passado cancelar a atração, citando “pressões financeiras” no cenário do late-night. A média do primeiro trimestre de 2026 era de apenas 2,69 milhões de espectadores — um terço do pico de despedida. Ou seja: fora de um evento especial, o programa operava com audiência residual.
Críticos acusaram a CBS e a Paramount de terem encerrado o programa para agradar o governo Trump e facilitar a aprovação da fusão entre a Paramount Global e a Skydance Media. A emissora nega, chamando a decisão de “puramente financeira”. Mas o timing — e o histórico de confrontos de Colbert com o ex-presidente — alimentou a especulação durante toda a temporada final.
A CBS aposta no barato
A substituição escolhida pela CBS diz tanto quanto os números de audiência. O horário das 23h35 passou a ser ocupado pelo Comics Unleashed, de Byron Allen, já a partir de 22 de maio, seguido pelo game show Funny You Should Ask às 0h35.
O detalhe revelador: Allen compra o tempo de antena da CBS e vende os espaços publicitários por conta própria, por meio de sua empresa, Allen Media Network. Em outras palavras, a emissora não produz mais seu late-night — aluga a faixa. É a admissão definitiva de que o formato, ao menos nos termos tradicionais, deixou de ser economicamente viável para uma grande rede.
Cord Cutting 2.0: a hemorragia continua
O caso Colbert é sintoma de um problema maior. Comcast e Spectrum (Charter) perderam juntas 382 mil assinantes de TV paga só no primeiro trimestre de 2026, além de 185 mil clientes de internet banda larga. A Comcast, sozinha, perdeu 322 mil assinantes de TV a cabo no período.
Ao final de 2025, domicílios sem TV paga nos EUA já somavam 77,2 milhões — contra 37,3 milhões em 2018. O streaming respondia por 47,5% do consumo televisivo em dezembro de 2025, enquanto o cabo encolheu para 20,2%. Não se trata mais de tendência. É fato consumado.
O que isso significa para o audiovisual
A era em que um único programa reunia dezenas de milhões de pessoas ao vivo, no mesmo horário, acabou. O que Carson representava — um ritual coletivo noturno — não tem equivalente no ecossistema atual, onde a atenção se divide entre Netflix, YouTube, TikTok, podcasts e criadores independentes no Twitch.
Para o mercado brasileiro, o paralelo é inevitável. Programas noturnos de auditório já enfrentam competição semelhante do streaming e das redes sociais. A diferença é que, no Brasil, a TV aberta ainda concentra audiência de forma mais significativa — mas a curva descendente está desenhada.
O Late Show saiu de cena com dignidade e um recorde. Mas o recorde, neste caso, é o melhor resultado possível dentro de um universo que encolheu dramaticamente. É como bater o recorde de vendas de discos de vinil em 2026: impressionante para o nicho, irrelevante para o mercado.
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