Apresentado com pompa pelo Governo Federal sob o apelido ambicioso de “a Netflix brasileira”, o serviço de streaming público Tela Brasil começou a operar recentemente com a promessa de democratizar o acesso ao cinema nacional. Coordenada pelo Ministério da Cultura (MinC), a plataforma conta com um catálogo inicial de cerca de 550 títulos.
Com um aporte inicial de R$ 4,2 milhões, o streaming nacional tenta se posicionar em um mercado saturado de gigantes do entretenimento, mas aposta em uma fórmula que traz pouca inovação e muita burocracia para o usuário comum.
Mais do mesmo?
O principal ponto fraco desde o lançamento do Tela Brasil é a falta de produções inéditas ou exclusivas de peso que justifiquem a infraestrutura digital pública. A curadoria da plataforma aposta quase integralmente em acervos históricos que já circulam há anos em outros serviços gratuitos (como o Sesc Digital, Itaú Cultural Play ou o próprio YouTube) ou canais pagos.
O catálogo destaca obras icônicas como Central do Brasil, Cidade de Deus, Carandiru, O Quatrilho e Deus e o Diabo na Terra do Sol. Embora sejam pilares inquestionáveis da riqueza cultural do país, são filmes amplamente acessíveis que o público interessado em cinema nacional já assistiu exaustivamente. Sem uma estratégia clara de fomento a lançamentos contemporâneos exclusivos ou atualizações constantes, a plataforma corre o sério risco de virar um “museu digital estático” abandonado pelo público após o frisson da estreia.
Burocracia para assistir: a barreira do login
Diferente de qualquer serviço de streaming do mercado, o Tela Brasil exige obrigatoriamente que o cidadão realize login integrado utilizando a sua conta Gov.br para conseguir dar o play em qualquer vídeo.
Essa exigência cria uma barreira desnecessária de usabilidade. Associar o momento de lazer e entretenimento a uma ferramenta burocrática do governo, usada majoritariamente para declaração de imposto de renda, consulta de benefícios e serviços públicos, afasta o espectador casual e levanta debates desnecessários sobre a privacidade e o rastreamento de dados de consumo cultural de cada CPF.
Como manter o projeto de pé?
A sustentabilidade financeira é o maior calcanhar de Aquiles do Tela Brasil. O mercado de streaming é conhecido mundialmente por queimar bilhões de dólares anualmente apenas com custos de servidores, hospedagem de vídeo em alta definição, suporte de tecnologia e manutenção de aplicativos para Smart TVs e celulares.
Ao se propor como uma plataforma 100% gratuita e livre de anúncios, o Tela Brasil fica totalmente dependente do Orçamento Geral da União e de verbas do Ministério da Cultura. Em um cenário econômico de constantes cortes de gastos e contingenciamentos públicos, manter uma estrutura tecnológica pesada de streaming ativa e atualizada apenas com dinheiro estatal parece uma conta difícil de fechar nos próximos anos. E você, o que tem achado do Tela Brasil?
