A véspera de uma eleição costuma ser época de casa cheia para canais de notícias. Desta vez, a regra falhou justamente para o maior deles. Às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3), a Fox News fechou outubro com uma queda de 27% no público médio ao longo do dia, na comparação com o mesmo mês de 2025.
O tombo é ainda mais feio na faixa de 25 a 54 anos, a mais cobiçada pelos anunciantes: recuo de 32%, para uma média de 98 mil espectadores. Segundo dados da Nielsen obtidos pelo TheWrap, é o pior resultado mensal do canal nesse público em 25 anos.
No horário nobre, o cenário se repete. A audiência total caiu 28% em relação ao ano anterior, e o público de 25 a 54 anos despencou 36%, para 183 mil espectadores. Nem o matinal “Fox & Friends”, instituição da casa, escapou: o programa ficou abaixo de 1 milhão de espectadores pelo segundo mês seguido.
Ainda no topo, mas menor
O paradoxo é que a Fox News continua dominando com folga, mas a vantagem encolheu. Veja a média de espectadores ao longo do dia, em outubro de cada ano:
| Canal | Out/2025 | Out/2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Fox News | 1.508.000 | 1.101.000 | −27% |
| MS NOW (antiga MSNBC) | 504.000 | 588.000 | +16,7% |
| CNN | 388.000 | 402.000 | +3,6% |
A Fox perdeu cerca de 407 mil espectadores em um ano. A MS NOW foi quem mais avançou, com 84 mil a mais. A CNN cresceu de forma tímida, com 14 mil a mais. Somando o ganho das duas rivais, menos de um quarto do público que deixou a Fox aparece do outro lado. O restante simplesmente saiu do mapa do cabo jornalístico, o que reforça a dúvida sobre para onde esse espectador foi.
A distância entre líder e vice também diminuiu. Em outubro de 2025, a Fox tinha praticamente o triplo da audiência da MS NOW. Agora, tem menos que o dobro.
Mesmo assim, a hegemonia segue intacta. A Fox ficou com 53% do público somado das três redes e emplacou 99 das 100 transmissões mais vistas da TV a cabo jornalística no mês. A própria emissora afirma estar a caminho do seu melhor ano eleitoral de meio de mandato em audiência total.
Para onde foi o espectador?
Ninguém tem uma resposta definitiva, e é aí que a história fica interessante. Há pelo menos quatro hipóteses na mesa:
- Cansaço político: um ex-executivo da Nielsen avalia que parte do público conservador pode estar simplesmente saturada de noticiário, sem ter rompido com o canal. Uma pesquisa do Pew Research Center mostra que a parcela de republicanos que acompanham notícias o tempo todo ou quase sempre caiu de 57% em 2016 para 36% em 2025.
- Mudança na régua: a Nielsen ajustou sua metodologia Big Data + Panel em agosto, o que torna a comparação entre outubro de 2025 e de 2026 imperfeita. Quanto isso pesou na queda, ainda não se sabe.
- Mês atípico: audiências de jornalismo oscilam muito em torno de grandes eventos. A própria MS NOW, que cresceu em outubro, segue 35% abaixo do pico de outubro de 2024, na reta final da disputa entre Trump e Harris.
- Migração para o digital: a Fox somou mais de 3,8 bilhões de visualizações no YouTube até 27 de outubro, à frente das rivais. Mas visualizações não equivalem à audiência média medida na TV, e não há prova de que o espectador do cabo tenha ido para lá.
Vale notar o que não está acontecendo. Depois da eleição de 2020, parte do eleitorado trumpista abandonou a Fox, irritada com a projeção da vitória de Joe Biden no Arizona, e a Newsmax ganhou fôlego temporário. Desta vez, não há sinal de uma debandada parecida para algum concorrente.
A conta que pode não fechar
Na leitura de parte da imprensa americana, a queda já virou termômetro político. O analista de mídia da CNN Brian Stelter, por exemplo, sugeriu que o recuo pode ser um sinal precoce de insatisfação do eleitor conservador antes da votação de 3 de novembro. É uma interpretação, não um dado: a Nielsen mede quem assiste, não por que deixou de assistir.
O ponto mais relevante para o mercado é outro. Por quase três décadas, a Fox construiu seu modelo de negócios sobre uma das audiências mais fiéis da televisão. Ela já provou que é possível perder público e ganhar receita ao mesmo tempo. A dúvida, na visão de analistas do setor, é por quanto tempo anúncios mais caros e taxas de distribuição maiores vão compensar uma plateia que encolhe.
E o Brasil com isso?
A Fox News integra o line-up de poucas operadoras de TV paga brasileiras, mas o dilema é familiar por aqui. Canais de notícias que dependem da TV por assinatura enfrentam a mesma equação: base de assinantes em queda, público migrando para YouTube e redes sociais, e um modelo de receita que ainda não encontrou substituto à altura. Se até a líder isolada do maior mercado do mundo sente o tranco, o recado vale para qualquer canal jornalístico que ainda aposta todas as fichas no cabo.
A cobertura da noite eleitoral desta terça vai oferecer um novo retrato. Mas, mesmo que a Fox volte a bater recordes, um bom resultado pontual não explica outubro nem garante que a tendência tenha virado.
E você: ainda assiste a canais de notícias na TV paga ou já acompanha tudo pelo YouTube e pelas redes? Conta nos comentários.
