O anúncio do maior contrato de licenciamento da história entre a Globo e a Netflix, que levará 18 produções originais brasileiras ao catálogo da gigante do streaming a partir de dezembro de 2026, é o capítulo mais recente de uma transformação estrutural no audiovisual global.
A aliança, que reúne obras aclamadas como o vencedor do Oscar Ainda Estou Aqui, a novela premiada no Emmy Caminho das Índias e sete temporadas da comédia Vai Que Cola, reflete um movimento em que as maiores redes de televisão aberta abandonaram a exclusividade absoluta em favor de parcerias estratégicas com o streaming.
Espanha e Portugal
A aliança da Globo com a Netflix encontra paralelo direto em acordos recentes e históricos firmados pela plataforma na Espanha e em Portugal, onde emissoras líderes uniram forças com o serviço para ampliar a distribuição de seu conteúdo e diversificar suas receitas:
Espanha: Parcerias estratégicas com Atresmedia e RTVE
Na Espanha, a líder comercial de televisão aberta Atresmedia (emissora por trás de sucessos globais originados na TV linear) e a pública RTVE consolidaram alianças de licenciamento e exibição compartilhada com a Netflix:

- Atresmedia: O grupo fechou acordos de licenciamento doméstico para compartilhar com a Netflix produções de destaque de sua grade e grandes programas de entretenimento (como Pasapalabra e ficções do canal Antena 3), estendendo o modelo de cooperação que transformou fenômenos da TV espanhola em marcas globais.
- Mundial de 2030: Em um desdobramento da sua presença no mercado espanhol, a Netflix também garantiu os direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2030 na Espanha e em Andorra, onde operará com sinal aberto para os jogos da seleção espanhola e da fase final em cooperação com as regulamentações locais.
Portugal: Licenciamento e exibição global com a RTP

Em Portugal, a emissora pública RTP fez história ao fechar acordos diretos de licenciamento e distribuição com a Netflix:
- Atrações de destaque: Séries originais premiadas da RTP, como a comédia dramática Até Que A Vida Nos Separe e produções históricas, foram adquiridas e distribuídas mundialmente na plataforma para mais de 190 países, abrindo as portas do mercado internacional para a ficção em língua portuguesa antes mesmo dos novos acordos com o mercado brasileiro.
Do Reino Unido ao Japão

Essa mesma estratégia de integração entre canais abertos e a Netflix já se consolidou como padrão em outros grandes mercados da mídia:
- Reino Unido (BBC e ITV): Séries consagradas produzidas originalmente para a TV aberta britânica, como Peaky Blinders (BBC) e Broadchurch (ITV), ganharam alcance planetário e novas janelas de rentabilização após os acordos de licenciamento com a Netflix.
- França (TF1 e France Télévisions): A líder da TV aberta francesa TF1 e a estatal France Télévisions fecharam acordos para licenciamento e coprodução de dramas históricos (como Le Bazar de la Charité e Les Combattantes), que estreiam primeiro na TV aberta local e depois seguem para o catálogo global da plataforma.
- Japão (Nippon TV e Fuji TV): Redes tradicionais da TV japonesa licenciaram centenas de horas de animes, dramas e programas de variedades para a Netflix, permitindo que conteúdos da TV aberta encontrem uma audiência jovem em escala mundial.
O que a Globo e o mercado ganham com esse modelo?

Para a Globo, o acordo com a Netflix representa uma dupla alavancagem de negócios:
Monetização de Acervo: Títulos consolidados como Vai Que Cola (com centenas de episódios gravados) e novelas clássicas voltam a gerar royalties expressivos sem perder o apelo junto ao público.
Vitrine Internacional: A presença de obras como Caminho das Índias e Ainda Estou Aqui em dezenas de países expõe o talento e a capacidade de produção do estúdio brasileiro para dezenas de milhões de assinantes, fortalecendo a marca da Globo no mercado global enquanto o Globoplay foca no público nacional e em nichos da lusofonia.
